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A COBRA UNTAIBID, O ARCO-ÍRIS

Havia uma cobra, cujo nome era Untaibid. Contam que Untaibid vinha descendo na flor d'água, como uma fruta boiando.

Uma mocinha foi ao igarapé encher o pote, quando vinha passando Untaibid.

- Que fruta bonita! - exclamou, e pôs na boca. - Que cajá doce! Onde estará o pé? - ficou pensando. Aí, da sua boca, escapuliu o caroço, e da boca foi para o bucho. Ela mesma se assustou. - Mas que fruta gostosa essa! - e gostou tanto que engoliu o caroço. Aí tomou um susto mesmo:

- Ai, engoli o caroço! Onde estará o cajá? - e pegou o pote d'água e foi embora.

Não tinha marido, era moça. Seu bucho foi crescendo, até que a irmã perguntou:

- Você está grávida? De quem?

- Eu sei lá! Sei que não ando com homem algum, mas estou grávida.

Era verdade, era tão menina que nem tinha ficado menstruada pela primeira vez. Mas o bucho foi crescendo. Então ela contou para a mãe:

- Eu fui pegar água, e engoli o caroço do cajá... aí a barriga foi crescendo.

Foi assim até a hora do parto, quando ela chamou a mãe para avisar que a barriga estava doendo.

Botou para fora, primeiro, uma cobra jararaca. A irmã dela gostou e guardou.. Apareceu uma segunda cobra, uma surucucu - a irmã gostou e não deixou matar. Se tivessem matado, hoje não existiria cobra. Mas a irmã soltava sempre. A terceira a aparecer foi a pico-de-jaca. A irmã se engraçou de novo:

- Que bicho bonitinho! - e colocou num pote, enrolado, estava guardando. Vinham todas as qualidades de cobra, e a irmã e a mãe soltavam, não queriam. Até que apareceu Untaibidpag. Acharam mais bonitinha que as outras, e soltaram as que tinham guardado até então.

Untaibid não saiu logo, não. Apareceu por derradeiro, e era a mais linda.

- Vamos criar as duas, Untaibidpag e Untaibid - combinaram a mãe e a irmã da moça. Mas ficaram só com a última, soltaram a outra.

Ficaram criando Untaibid. Davam comida, de tudo o que elas mesmas comiam.

Untaibid comia bem. Até que um dia, falou:

- Mamãe, estou com uma fome! Tenho vontade de comer peixe! Vamos embora pescar no igarapezinho?

- Você não vê, meu filho, que está tudo alagado? - mas a cobra insistiu tanto que a mãe saiu com ela. Foi andando, com a cobra Untaibid atrás. No igarapezinho, a cobra falou:

- Mãe, você fica aqui e eu deito no igarapé, cruzando a água, e o rio vai secar, para você pegar piaba para eu comer.

Estirou- se e pegou a água, a água secou. As piabas pulavam.

- Pega, mamãe! Pega ligeiro, que a água está pesando! Sai logo que eu não agüento, vou levantar!

A mãe saiu e a cobra soltou a água. A mulher fez fogo, e ficou assando os peixes, enquanto Untaibid foi se enxugar lá em cima do açaizeiro.

- Mãe, está pronto? - e desceu para comer. Nessa hora, virava gente. Comia o peixe, mas jogava fora, na água, o rabo e a cabeça - e estes viravam peixe vivo, outra vez!

A mãe fez moqueca e Untaibid chamou-a para ir embora.

Na aldeia, a avó fartou-se de comer, e perguntou como tinham apanhado tanto peixe.

No outro dia, a cobra acordou com fome, queria peixe outra vez, e não milho cozido. Foram pescar, do mesmo jeitinho que antes. a cobra avisava:

- Mãe, quando eu falar, tem que correr logo se não a água leva!

A mãe saía direitinho, fazia foguinho, assava peixe para a cobra, que subia no açaizeiro para secar-se, e virava gente para comer.

Assim a cobra foi crescendo, ficou com mais de dez metros.

Um dia, a avó quis ir junto, para ver como é que se pegava peixe no inverno. A filha esplicou direitinho:

- Mãe, quando seu neto falar, você tem que ganhar logo o mato, porque a água pesa, e ele não tem força para segurar!

Chegaram no igarapé grande, e ele avisou:

- Quando eu falar, mamãe, você e minha avó sobem no barranco! - e se deitou no rio.

Era peixe que não acabava mais. A velha gostou, e ia catando. A cobra gritou que não agüentava mais, para elas saírem.

- Mas ainda tem muito peixe - pedia a velha -, segura a água mais um pouco!

Untaibid balançou outra vez, estava exausto, e a velha nada. A mãe, já no barranco, pedia para a velha voltar. De repente, o menino, exaurido, levantou e a água levou a velha. Fez uma casa no fundo d'água para ela não morrer. Hoje em dia, existe o lugar onde ela ficou alagada, é uma lagoa bem antiga em Mato Grosso, onde aconteceu.

- Minha mãe, minha avó é impossível, deixe-a ficar no fundo, que estará bem.

A mãe cozinhou, chorando. Sabia que a avó não ia morrer, ia virar cobra. A velha não voltou.

O tio, o irmão da mãe de Untaibid, não gostou. "Vou matar essa cobra!", pensou, e marcou o menino para matar.

Até que o menino inventou de pintar a mãe:

- Você se pendura (num galho) e eu engulo você para te pintar. Aí você balança para fazer força para eu descer, e eu não engolir você toda.

Ele ia engolindo a mãe, primeiro os pés, depois as pernas, ia subindo. Ia pintando. A mãe se sacudia e ele a soltava.

A mãe ficou muito bonita. Foi passear no mato; a tia e ficou com muita inveja. Disse:

- Quem foi que lhe pintou? Eu queria que nosso filho me pintasse também! - a irmã ficou insistindo. A mãe não queria:

- Nosso irmão já está mal com nosso filho, e não quero perder meu filho. Ele já fez nossa mãe se perder, não sei se está viva ou não, ele diz que está viva. Mas nosso irmão está muito bravo.

A tia tanto aperreou, que o menino prometeu pintar, mas avisou:

- Se eu começar a engolir muito você, você me sacode, senão eu te como inteira. Pode se pendurar aqui nesse galho.

Untaibid começou a pintar pelos pés. Foi subindo, e quando chegou na cintura, balançou a tia para ela sair, mas ela pediu:

- Quero mais, meu filho! - e ele foi engolindo mais. Quando passou do pescoço, engoliu a tia toda.

A mãe falou para ele botar para fora. Mas o tio, com raiva, pegou a espada e espancou-o com violência. Untaibid ia cuspir a tia viva, mas com as pancadas, ela morreu.

Untaibid provocou (vomitou), e saiu a mulher, morta com o corpo todo pintado.

O menino chorou a noite toda, o outro dia, não parava de chorar. Pediu para a mãe:

- Vamos embora daqui, aqui não fico mais!

A mãe não queria, pensou, pensou, mas acabou indo com ele. Desceram para a água, e ele espalhou os bichos que tinha. Inventava muita coisa: galinha, pato d'água, caracol. De vez em quando as formigas matavam seus bichos.

Então ele queria ir mais longe. Por onde passava, a água ia crescendo. A mãe ia na frente, e ele atrás, fazendo a água crescer. Até chegarem num lugar em que soltou todos os bichos, e mais as formigas.

A mãe chorava, com pena de deixar o irmão. Mas foram descendo mais ainda. Untaibid fez a mãe virar cobra também, deixar de ser gente. E soltou os bichos de novo, com as formigas.

Iam descendo, as duas cobras, e o rio se alargando. Fez um rio largo, lá naquele rumo, que é onde ele mora.

Ele tem que ir caminhando pelo céu, porque se fosse pelo chão ele acabaria o mundo, alagando. Por esse caminho, vai visitar o tio, e a mãe vai olhar o irmão.

A sombra de Untaibid é o arco-íris que aparece no céu. Untaibid mesmo mora num lugar cheio de água, talvez o mar. O arco-íris é só seu reflexo.

 

Narrador: Maindjuari (1989)
TUPARIS E TARUPÁS
Narrativa dos índios Tuparis de Rondônia
Betty Mindlin
Editora: EDUSP / IAMÁ / BRASILIENSE
Pg. 31, 32, 33, 34 e 35
ISBN 85-11-07037-0

 

       

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